Asset Fuse Review · Vol. 01
002mai 2026Política de SaúdeLeitura · 11 min

O Futuro do Financiamento da Saúde em Portugal

Porque o modelo atual é cada vez menos sustentável — e qual será o papel das farmácias na próxima década.

Portugal está a entrar numa das maiores transformações estruturais do sistema de saúde desde a criação do SNS. Durante décadas, o modelo assentou numa lógica simples: o SNS financiava grande parte dos cuidados, as farmácias funcionavam como extensão operacional do sistema e o medicamento era o principal centro da despesa farmacêutica.

Essa lógica está a mudar rapidamente. O envelhecimento, a doença crónica, a inovação terapêutica, a pressão orçamental do Estado e o aumento da despesa direta das famílias estão a criar um novo paradigma — e o modelo atual de financiamento está sob crescente pressão estrutural.

  • Comparticipações em revisão
  • Margens sob pressão contínua
  • Crescimento dos serviços remunerados
  • Nova relação operacional com o SNS
  • Papel clínico ampliado da farmácia comunitária

O problema estrutural do sistema português

O SNS foi desenhado para uma realidade demográfica completamente diferente da atual. As premissas fundadoras já não correspondem ao país real.

  • População mais jovem
  • Menor esperança média de vida
  • Menor incidência de doença crónica
  • Terapêuticas menos complexas
  • Menor pressão tecnológica

Portugal envelhece mais rápido do que consegue financiar

Evolução demográfica de Portugal — 2000, 2024 e projeção 2040
Indicador200020242040 (estim.)
População >65 anos16%24%31%
Índice de envelhecimento102188242
Esperança média de vida76,282,184+
Ativos por idoso4,12,71,9
31%
População >65 em 2040
vs 16% em 2000
242
Índice de envelhecimento
+137% desde 2000
1,9
Ativos por idoso em 2040
vs 4,1 em 2000
Pressão demográfica sobre o sistema de saúde — Índice base 100 (2000)
4084128172216260Base 100 = 2000200020082016202420322040População >65 · 2000: 100População >65 · 2008: 120População >65 · 2016: 140População >65 · 2024: 150População >65 · 2032: 175População >65 · 2040: 194Índice de envelhecimento · 2000: 100Índice de envelhecimento · 2008: 130Índice de envelhecimento · 2016: 160Índice de envelhecimento · 2024: 184Índice de envelhecimento · 2032: 215Índice de envelhecimento · 2040: 237Esperança de vida · 2000: 100Esperança de vida · 2008: 103Esperança de vida · 2016: 106Esperança de vida · 2024: 108Esperança de vida · 2032: 109Esperança de vida · 2040: 110Ativos por idoso (inverso) · 2000: 100Ativos por idoso (inverso) · 2008: 88Ativos por idoso (inverso) · 2016: 75Ativos por idoso (inverso) · 2024: 66Ativos por idoso (inverso) · 2032: 55Ativos por idoso (inverso) · 2040: 46
  • População >65
  • Índice de envelhecimento
  • Esperança de vida
  • Ativos por idoso (inverso)

O problema económico é evidente: haverá menos população ativa para financiar um sistema com muito mais consumo de saúde.

A doença crónica será o maior driver da despesa

O crescimento da despesa não está nas doenças agudas. Está concentrado num conjunto de patologias estruturais que implicam consumo permanente, monitorização contínua e acompanhamento de longo prazo.

  • Diabetes
  • Doença cardiovascular
  • Obesidade
  • Saúde mental
  • Oncologia
  • Longevidade e fragilidade

O futuro da saúde será mais caro mesmo sem inflação

Um dos maiores erros de leitura do setor é assumir que o aumento da despesa vem apenas da inflação. A pressão será sobretudo estrutural.

Drivers estruturais da despesa em saúde
DriverImpactoHorizonte
EnvelhecimentoMuito altoPermanente
Doença crónicaMuito altoPermanente
Inovação terapêuticaAltoCrescente
Oncologia avançadaAltoCrescente
Saúde mentalAltoLongo prazo
LongevidadeMuito altoEstrutural
Inflação geralMédioVariável
Mesmo com inflação controlada, a despesa em saúde continuará a crescer durante décadas.

O SNS não conseguirá financiar tudo sozinho

O financiamento público enfrenta hoje três limitações cumulativas que se reforçam mutuamente.

  • Pressão orçamental persistente
  • Envelhecimento da base contributiva
  • Crescimento exponencial do custo da inovação terapêutica

O peso da inovação farmacêutica vai aumentar

Os novos medicamentos são mais personalizados, mais biotecnológicos, mais direcionados — e significativamente mais caros por doente tratado.

Evolução da complexidade terapêutica — Portugal, 2005 vs 2024
Tipo de terapêuticaPeso 2005Peso 2024
Small molecules82%54%
Biológicos11%29%
Terapias avançadas1%8%
Personalizadas6%9%
Mix terapêutico em Portugal — % do total de terapêuticas dispensadas
0183654729020052010201520202024Small molecules · 2005: 82Small molecules · 2010: 76Small molecules · 2015: 68Small molecules · 2020: 60Small molecules · 2024: 54Biológicos · 2005: 11Biológicos · 2010: 16Biológicos · 2015: 21Biológicos · 2020: 26Biológicos · 2024: 29Terapias avançadas · 2005: 1Terapias avançadas · 2010: 2Terapias avançadas · 2015: 4Terapias avançadas · 2020: 6Terapias avançadas · 2024: 8Personalizadas · 2005: 6Personalizadas · 2010: 6Personalizadas · 2015: 7Personalizadas · 2020: 8Personalizadas · 2024: 9
  • Small molecules
  • Biológicos
  • Terapias avançadas
  • Personalizadas

O modelo de comparticipação vai mudar

Tudo indica que Portugal caminhará para um modelo de financiamento mais seletivo, focado em resultados clínicos mensuráveis.

  • Comparticipação mais seletiva por terapêutica
  • Maior foco em outcomes clínicos
  • Pagamento baseado em valor demonstrado
  • Maior estratificação de risco por utente

Value-based healthcare ganhará peso

O financiamento tenderá a privilegiar prevenção, adesão terapêutica, redução de internamentos e gestão integrada da doença.

O sistema deixará progressivamente de pagar pelo produto e passará a pagar pelo resultado clínico.

O que isto significa para as farmácias

A farmácia comunitária poderá deixar de ser vista apenas como ponto de dispensa, canal logístico ou operador comercial — e ser integrada como nó clínico do sistema.

  • Ponto de acompanhamento clínico de proximidade
  • Gestor de adesão terapêutica
  • Agente ativo de prevenção
  • Extensão descentralizada do SNS

As farmácias podem tornar-se um pilar de sustentabilidade do SNS

O racional económico é simples e convergente com o interesse público.

  • Uma intervenção precoce custa menos do que uma tardia
  • Evitar internamentos reduz despesa hospitalar
  • Melhorar adesão reduz complicações e recidivas
  • Proximidade aumenta eficiência e cobertura territorial

Serviços com maior potencial de financiamento futuro

Áreas prováveis de remuneração clínica em farmácia comunitária
ServiçoPotencial
Gestão da adesão terapêuticaMuito alto
Acompanhamento da diabetesMuito alto
VacinaçãoAlto
RastreiosAlto
Monitorização da hipertensãoAlto
Revisão terapêuticaMuito alto
Programas de prevençãoCrescente
7
Serviços com remuneração projetada
horizonte 2030
−18%
Internamentos evitáveis
potencial via adesão
+3x
Receita por serviços clínicos
projeção 2024 → 2032

O papel do utente também vai mudar

O financiamento da saúde será cada vez mais híbrido. O consumidor assumirá uma fatia crescente da gestão da sua própria saúde.

Estrutura provável do financiamento da saúde
Fonte de financiamentoTendência
SNSPressionado
Seguros de saúdeCrescente
Out-of-pocketCrescente
Subscrições e prevençãoCrescente
Programas corporativosCrescente
Mix de financiamento da saúde em Portugal — % projetada
014284256702010202420322040SNS · 2010: 66SNS · 2024: 60SNS · 2032: 54SNS · 2040: 49Out-of-pocket · 2010: 25Out-of-pocket · 2024: 28Out-of-pocket · 2032: 30Out-of-pocket · 2040: 31Seguros de saúde · 2010: 6Seguros de saúde · 2024: 9Seguros de saúde · 2032: 12Seguros de saúde · 2040: 14Subscrições/prevenção · 2010: 1Subscrições/prevenção · 2024: 2Subscrições/prevenção · 2032: 3Subscrições/prevenção · 2040: 4Programas corporativos · 2010: 2Programas corporativos · 2024: 1Programas corporativos · 2032: 1Programas corporativos · 2040: 2
  • SNS
  • Out-of-pocket
  • Seguros de saúde
  • Subscrições/prevenção
  • Programas corporativos

O novo mercado: prevenção e longevidade

A próxima década será marcada por uma migração estrutural do foco do sistema.

  • Da doença para a prevenção
  • Do tratamento para a longevidade
  • Do agudo para o acompanhamento contínuo

O medicamento já não será o único centro económico da farmácia

As categorias com maior potencial de crescimento estão fora do medicamento regulado.

  • Suplementação
  • Saúde metabólica
  • Microbioma
  • Envelhecimento saudável
  • Prevenção cognitiva
  • Nutrição funcional
  • Saúde preventiva

Cinco fatores críticos de competitividade

Fatores críticos para a farmácia comunitária na próxima década
FatorImpacto futuro
Dados e segmentação de utentesMuito alto
Fidelização do utente crónicoMuito alto
Serviços clínicos remuneradosMuito alto
Prevenção e wellnessAlto
Integração digitalAlto

O grande risco para o setor

O maior risco não é a redução de margem — é permanecer num modelo centrado apenas na dispensa enquanto o financiamento da saúde evolui para serviços, outcomes e prevenção.

Conclusão

Portugal entra numa nova fase do financiamento da saúde. O crescimento da despesa será impulsionado pelo envelhecimento, pela cronicidade, pela inovação terapêutica e pela longevidade — mas o SNS terá cada vez mais dificuldade em financiar sozinho esse crescimento.

Neste contexto, as farmácias comunitárias poderão assumir um papel estruturalmente mais relevante: acompanhamento, adesão, prevenção, monitorização e proximidade clínica. O futuro do setor não será definido apenas pelo medicamento — será definido pela capacidade de gerar valor clínico mensurável num sistema sob crescente pressão financeira.

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