Asset Fuse Review · Vol. 01
001mai 2026MercadoLeitura · 9 min

Porque os portugueses gastam mais em farmácia apesar da queda do preço dos medicamentos?

O preço do medicamento caiu durante uma década. A despesa em farmácia subiu. O paradoxo que está a redefinir a farmácia comunitária portuguesa.

Os portugueses gastam hoje mais em farmácia do que há dez anos — apesar de o preço médio do medicamento sujeito a receita médica (MSRM) ter caído de forma continuada no mesmo período. A explicação não está na inflação do medicamento. Está no aumento do volume dispensado, no envelhecimento da população, na cronicidade crescente e na expansão das categorias menos reguladas. Este artigo descreve, com dados, o paradoxo que está a redefinir a farmácia comunitária em Portugal.

O paradoxo que está a redefinir a farmácia comunitária

Existe uma perceção generalizada de que a despesa em farmácia subiu porque “os medicamentos estão mais caros”. Para quem trabalha no setor, a realidade é substancialmente mais complexa. O mercado farmacêutico português viveu uma década marcada por compressão estrutural do preço médio do medicamento, crescimento do volume dispensado e expansão acelerada das categorias livres.

A despesa aumentou — mas o MSRM não acompanhou a inflação geral da economia. Esta diferença é crítica para profissionais de farmácia: altera a leitura do crescimento, a estratégia comercial, a gestão operacional e o modelo de rentabilidade futura.

  • Compressão administrativa do preço do medicamento
  • Crescimento do volume dispensado
  • Expansão da doença crónica
  • Envelhecimento acelerado da população
  • Aumento do peso das categorias não reguladas

O maior erro na leitura do mercado farmacêutico

A maioria das análises generalistas associa automaticamente crescimento de despesa a inflação. No setor farmacêutico português, o comportamento dos preços foi estruturalmente diferente do restante retalho. Entre 2010 e 2024, o MSRM esteve sujeito a revisões administrativas de preços, políticas de contenção do SNS, sistemas de preço de referência, promoção agressiva de genéricos e pressão concorrencial.

O resultado foi inequívoco: o preço médio por embalagem caiu de forma continuada, mesmo em períodos de inflação elevada na economia portuguesa.

O medicamento foi um setor deflacionista durante mais de uma década, enquanto o resto da economia inflacionava.

A evidência: o crescimento não veio do preço

O gráfico abaixo está em índice base 100: significa que tudo é comparado ao ano de 2010, fixado em 100. Se uma série está a 144 em 2024, cresceu 44%; se está a 81, caiu 19%. É a forma standard de mostrar evoluções relativas em vez de valores absolutos — permite comparar séries com unidades diferentes (preços, volumes, percentagens, idades) na mesma escala.

Evolução estrutural do mercado farmacêutico em Portugal — Índice base 100 (2010)
7096122148174200Base 100 = 201020102012201420162018202020222024Preço médio MSRM · 2010: 100Preço médio MSRM · 2012: 96Preço médio MSRM · 2014: 91Preço médio MSRM · 2016: 88Preço médio MSRM · 2018: 85Preço médio MSRM · 2020: 83Preço médio MSRM · 2022: 82Preço médio MSRM · 2024: 81Volume embalagens · 2010: 100Volume embalagens · 2012: 104Volume embalagens · 2014: 109Volume embalagens · 2016: 115Volume embalagens · 2018: 122Volume embalagens · 2020: 128Volume embalagens · 2022: 136Volume embalagens · 2024: 144Despesa total · 2010: 100Despesa total · 2012: 101Despesa total · 2014: 103Despesa total · 2016: 107Despesa total · 2018: 113Despesa total · 2020: 119Despesa total · 2022: 128Despesa total · 2024: 137Peso genéricos · 2010: 100Peso genéricos · 2012: 112Peso genéricos · 2014: 126Peso genéricos · 2016: 141Peso genéricos · 2018: 155Peso genéricos · 2020: 166Peso genéricos · 2022: 173Peso genéricos · 2024: 181População >65 · 2010: 100População >65 · 2012: 104População >65 · 2014: 108População >65 · 2016: 113População >65 · 2018: 118População >65 · 2020: 123População >65 · 2022: 129População >65 · 2024: 135
  • Preço médio MSRM
  • Volume embalagens
  • Despesa total
  • Peso genéricos
  • População >65

O gráfico mostra uma transformação estrutural: o preço médio caiu, o volume aumentou fortemente, e a despesa cresceu por recorrência de consumo. Portugal passou de um mercado dependente de preço para um mercado dependente de volume e cronicidade.

O envelhecimento é o principal driver do mercado

Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa. Para a farmácia comunitária, este facto demográfico traduz-se diretamente na economia diária do balcão.

  • Aumento da frequência de dispensa por utente
  • Maior consumo recorrente e previsível
  • Crescimento da polimedicação
  • Maior complexidade terapêutica e de aconselhamento

O utente crónico mudou a economia da farmácia

O crescimento atual não está no ticket unitário do medicamento. Está na frequência, na recorrência, na retenção e no lifetime value do utente. O utente crónico passou a ser a unidade económica relevante — não a transação isolada.

Evolução do utente crónico — Portugal, 2010 vs 2024
Indicador20102024
Embalagens/ano por utente1829
Frequência média farmácia/mês1,22,1
Nº médio de terapêuticas2,34,1
Ticket médio MSRM€22€19
Ticket médio total€29€41
Peso categorias não-medicamento24%46%
+41%
Ticket médio total
2010 → 2024
−14%
Ticket médio MSRM
2010 → 2024
+92%
Peso categorias livres
24% → 46%

O ticket médio de MSRM caiu, mas o ticket total subiu de forma significativa. O crescimento da farmácia migrou para fora do medicamento — e o basket complementar tornou-se central na rentabilidade.

A inflação existe — mas não no MSRM

Outro erro frequente é assumir que toda a farmácia sofreu inflação homogénea. Na prática, o medicamento sujeito a receita teve comportamento quase deflacionista; as categorias livres absorveram a maior pressão inflacionista.

Inflação geral vs categorias farmácia — Portugal (variação anual)
AnoInflação geralMSRMOTCDermocosméticaSuplementos
20190,3%−1,8%1,2%2,9%2,5%
20200,0%−1,5%1,5%3,2%3,8%
20211,3%−0,9%2,7%4,6%5,2%
20227,8%0,4%5,9%8,7%9,4%
20234,3%0,7%4,8%6,2%7,1%
20242,6%0,9%3,5%5,1%5,8%
O consumidor sente inflação na farmácia, mas sobretudo fora do medicamento regulado.

O papel dos genéricos na compressão do mercado

A expansão dos genéricos foi um dos maiores fatores de compressão de preço da última década. As consequências estruturais são conhecidas e têm impacto direto na conta de exploração da farmácia.

  • Redução do preço médio por embalagem
  • Menor margem absoluta por dispensa
  • Maior pressão operacional sobre o balcão
  • Necessidade de compensação via categorias complementares

O crescimento da farmácia está fora do medicamento

As categorias que mais cresceram na última década foram precisamente as menos reguladas — onde existe liberdade de preço, espaço de exposição e capacidade de aconselhamento diferenciado.

Crescimento por categoria em Portugal — 2015 a 2024
CategoriaCrescimento 2015–2024Margem média
MSRM11%Baixa
Genéricos18%Muito baixa
OTC29%Média
Dermocosmética54%Alta
Suplementos71%Alta
Dispositivos médicos33%Média
Nutrição especializada41%Média/Alta

O setor tornou-se menos dependente do medicamento, mais dependente de conveniência e mais focado em prevenção e wellness.

O novo modelo económico da farmácia

A transformação do mercado obrigou a uma redefinição completa da lógica operacional. O modelo antigo — assente em preço e dispensa — foi substituído por um modelo assente em volume, fidelização e serviço clínico.

Modelo antigo vs modelo atual da farmácia comunitária
Modelo antigoModelo atual
Crescimento por preçoCrescimento por volume
Dependência do MSRMDiversificação de receita
Venda transacionalFidelização e recorrência
Ticket unitárioLifetime value
Margem do medicamentoMix complementar
DispensaServiço clínico
Procura passivaGestão ativa do utente

O problema central: compressão operacional

Apesar do crescimento do mercado, a pressão operacional aumentou de forma significativa. A farmácia cresceu em faturação — mas perdeu eficiência em várias frentes simultâneas.

Pressão operacional nas farmácias portuguesas — Índice base 100 (2015)
Indicador20152024
Margem média MSRM10082
Custos energia100163
Custos RH100148
Custos logísticos100157
EBITDA operacional10091
Dependência OTC/complementares100169

A leitura é desconfortável mas necessária: a farmácia portuguesa cresceu em volume e em faturação, mas a sua eficiência operacional contraiu-se. O EBITDA por unidade dispensada é hoje menor do que era há uma década.

O que vai definir as farmácias mais rentáveis

Nos próximos anos, as farmácias mais resilientes serão as que conseguirem combinar disciplina operacional com leitura económica do utente.

  • Aumentar a retenção de utentes crónicos
  • Segmentar a base por terapêutica e frequência
  • Trabalhar dados de consumo em cadência mensal
  • Desenvolver serviços clínicos diferenciados
  • Aumentar share-of-wallet por utente
  • Crescer em categorias complementares de margem alta

Conclusão

O crescimento da despesa farmacêutica em Portugal não resulta principalmente da inflação no medicamento. O MSRM viveu uma década de compressão estrutural de preço; o crescimento veio do aumento do volume, da doença crónica, do envelhecimento e da expansão das categorias não reguladas.

Para os profissionais de farmácia, isto significa uma mudança estrutural profunda: o futuro da rentabilidade será cada vez menos dependente do preço do medicamento e cada vez mais dependente da capacidade de gerir recorrência, serviços clínicos e relação contínua com o utente.

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